terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Parte 8 - O pior amigo do mundo

Filho é a coisa mais surreal do mundo. Primeiro nasce no
coração, do desejo absurdo de ter alguém pra chamar
de seu. Porque é isso. É posse. Nasce e cresce em mim,
é meu.

Depois a loucura vai ficando maior. Filho carrega a
ampulheta do tempo. Minta para o mundo, até para
si mesmo. Mas a sua minicópia não se deixa enganar.
E para o resto dos seus dias a aouvirá dizendo "Lembra?".
"Eu lembro!".

Mas a loucura pode ficar ainda maior. Minicópias são
minicópias. Mas não esqueçam Darwin, são minicópias
melhoradas ou com potencial para serem melhores.
Muito bom, não é. Até chegar o dia de virar a ampulheta.

Aconteceu assim comigo. Depois de encontrar a fadinha do
sonho, minha filha de 4 anos me acordou na cama e depois
de um longo abraço me disse, em segredo, bem baixinho ao
ouvido: "Acorda mamãe, tá tudo bem. Vai dar tudo certo!".

Qual nada. Em questão de segundos senti no cangote o bafo
quente do meu amigo Pânico, profetizando suas
intermináveis teorias de conspiração - "se a menina está
pronta, é chegada a sua hora." E quanto mais olhava minha
filha, ali tão radiante e cheia de si, mais argumentos
encontrava aquele mexeriqueiro.

Para o bem da família, me afastei da minha princesa. E
respirei fundo. E fiz Pânico acreditar que estava surda -
para ele e para ela, infelizmente. E como me doeu. Então
achei mais fácil ficar realmente surda, para o mundo inteiro.
E depois de alguns dias, ele se rendeu.

Filhos são uma loucura mesmo, surreal. Pois não é que a
pequena também aprendeu a enganá-lo...e nunca fomos
tão unidas, minha Cinderela e eu. Pânico não consegue ler
declarações especiais de amor. E se cansa.

Mas o bafo, é bom dizer, volta e meia aparece.

4 comentários:

Príncipe disse...

OK. Entendi quem é Ele. E quem é MIM ? Quem é Eu, se quem fala, quem observa, quem relata, não é o Eu, é o observador....

Leila disse...

Oi Mina, acabei de chegar e já te adicionei no meu favoritos. Não prometo ler todos os posts anteriores; muita coisa pra trás, pouco tempo a frente. Mas seu amigo também sopra no meu ouvido freqüentemente e, pra minha felicidade, agora cada vez menos. O duro é saber que ele está sempre lá, atrás da cortina, deitado no sofá, espremendo laranjas na cozinha, conversando com o chefe na mesa do café. Sempre me assusto qdo nossos olhares se encontram. Por mais que tente, não consigo disfarçar o desconforto diante de seu sorriso de escárnio.

Leila disse...

Oi Mina, acabei de chegar e já te adicionei no meu favoritos. Não prometo ler todos os posts anteriores; muita coisa pra trás, pouco tempo a frente. Mas seu amigo também sopra no meu ouvido freqüentemente e, pra minha felicidade, agora cada vez menos. O duro é saber que ele está sempre lá, atrás da cortina, deitado no sofá, espremendo laranjas na cozinha, conversando com o chefe na mesa do café. Sempre me assusto qdo nossos olhares se encontram. Por mais que tente, não consigo disfarçar o desconforto diante de seu sorriso de escárnio.

Bina Scolari disse...

Gosto de estórias de sucesso. Gosto mais ainda de pessoas com estórias de sucesso. Seja bem-vinda, Leila.